VITÓRIA CRIBB
Por Clarissa Diniz
Desde cedo, Vitória Cribb (Rio de Janeiro, 1996) foi incentivada por seus pais — ele, haitiano; ela, brasileira, ambos engenheiros — a explorar computadores, internet, jogos e demais tecnologias como parte da festiva investigação do mundo própria à infância. Nesse contexto, o universo digital não se apresentou à artista como uma ferramenta tardia ou instrumentalizada para fins de estudo ou trabalho, mas como o território originário de seu brincar. Como um dispositivo de experimentação contínua — alheio às lógicas prescritivas do erro e do acerto —, a máquina foi uma presença constante no processo de invenção de si vivenciado por Cribb. Dessa precoce familiaridade com ambientes computacionais e interfaces interativas emerge sua obra: uma prática lastreada numa imemorial relação com a tecnologia que é, ao mesmo tempo, íntima, crítica e imaginativa.
Dessa estreita implicação entre criação, corpo e tecnologia, surge um dos princípios poéticos e políticos de Vitória Cribb: a inseparabilidade entre sujeitos e máquinas e seus singulares regimes de atenção e sentido. Sua formação pela Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI/UERJ, 2015–2020) consolidou esse vínculo inicial ao oferecer ferramentas para articular, de maneira sistemática, a prática artística e o desenvolvimento tecnológico. No âmbito do design, a artista encontrou um campo expandido no qual estética, funcionalidade e política se entrelaçam, permitindo-lhe operar, simultaneamente, nos registros do sensível e do técnico.
Sua prática no campo da realidade aumentada (AR) e da realidade estendida (XR) acontece a partir das institucionalidades das artes e por meio da BTWN Studios — braço comercial de sua atuação, com produções no campo das lentes AR, avatares 3D e ambientes VR, entre outros. Desde 2020, Cribb integra, com a BTWN, o programa de criadores de lente oficial do Snapchat e desenvolve inúmeros trabalhos para outros autores, marcas e plataformas de tecnologia: uma intensa produção de imagens e vídeos que, circulando por diferentes mundos e usos, incorpora também uma dimensão crítica em relação às tecnologias que mobiliza.
Como mulher negra, a racialização das tecnologias constitui parte central de sua perspectiva crítica, aspecto emblemático já em seu primeiro filme, Prompt de comando (2019). Nele, Cribb estabelece analogias entre o corpo negro e o corpo digital: uma reflexão que retorna em diferentes obras, sempre adensada por questões transversais como gênero, saúde mental, necropolítica e vigilância. Ao alternar e convergir os termos “negros” e “digitais”, o filme desvela como a supremacia racial branca e suas diferentes tecnologias sociopolíticas reduziram outros sujeitos e saberes a um caráter invisível, servil e dessubjetivado: “meu corpo sempre foi virtual, intocável, / não amado e posto de curiosidade”.
Prompt de comando foi apresentado em instituições culturais e festivais nacionais e internacionais, abrindo caminho para uma trajetória híbrida que articula bienais, mostras coletivas, circuitos audiovisuais e trabalhos publicitários. Sua presença na Bienal Sesc_Videobrasil (2023), onde recebeu o prêmio de residência no Wexner Center for the Arts (2026), assim como em eventos como o SXSW (2022) e o Glasgow Short Film Festival (2026), evidencia a circulação consistente da obra de Cribb entre os circuitos da arte contemporânea e do cinema experimental. O trânsito da artista por diferentes campos simbólicos, mercados e audiências revela-se uma premissa política que recusa o tradicional elitismo das artes visuais diante da diversidade de imaginários e formas de criação da atualidade.
Não à toa, sua obra está repleta de referências a diferentes modos de conceber o espaço. Se em Prompt de comando, o fundo negro da tela emerge como dupla metáfora para o ciberespaço e a Kalunga Grande — ambos navegados por corpos negros e digitais —, em obras posteriores, as avatares surgem em espacialidades flácidas, assépticas e desidentificadas, como em BUGs (2023) e @ILUSÃO (2020), este último integrante da mostra do Prêmio PIPA 2022 (Paço Imperial, Rio de Janeiro), que, naquele ano, premiou Vitória Cribb.
Se, por um lado, esses cenários se aproximam da infinitude topológica do ciberespaço (do qual se tornam espelho e metáfora), por outro, dão a ver espacialidades cuja elasticidade converge para os enredos metamórficos dos filmes de Cribb, reimaginando, assim, as relações entre espaço, tempo e identidade.
Nessa direção, torna-se icônico o filme Spiral (2024), comissionado pela INURED (Interuniversity Institute for Research and Development, Haiti). Nele, uma das avatares que habitam o imaginário da artista percorre uma busca aquática pela identidade que lhe fora saqueada: “When the figure in front of the mirror becomes unrecognizable, searching for the soul across the water brings comfort”. Produzido junto a uma instituição haitiana — território da ancestralidade paterna da artista —, Spiral é um enunciado político acerca das projeções hostilmente disparadas pelo olhar alheio que vigia, desumaniza, silencia, deforma e exclui. Ao entrecruzar a diáspora negra e o expansionismo digital, o filme delineia a espiralada permanência da colonialidade, agora em sua versão Web 3.0: o colonialismo de dados. A relevância dessa investigação se confirma pela presença de Cribb em bienais como a 14ª Bienal do Mercosul (2025), Sharjah Biennial 16 (2025) e Bangkok Art Biennale (2022), bem como por sua indicação a prêmios como CIFO-Ars Electronica Award e Ars Electronica.
A série Vigilante_00 (2022–), composta pela trilogia VIGILANTE_EXTENDED (2022), BUGs (2023) e echoes of a wet finger: (2024), nasce das preocupações de Cribb com a vigilância na atual versão da internet — na qual o controle se intensifica, na medida em que é realizado através de dados públicos e rastreáveis, e pela participação dos próprios usuários na monitoração das interações.
Nesses trabalhos, a generificação [gendering] da tecnologia adquire protagonismo por meio da figura alegórica da “vigilante”, uma espécie de versão 3.0 e igualmente interespécie da Medusa; a avatar cujo corpo é recoberto por olhos e orelhas conduz os espectadores através de uma distópica aventura que atravessa aspectos como a obsessão com o olhar da alteridade, a disforia e o fascínio com o erro, a metamorfose e a inversão de perspectivas entre o eu e o outro, presas e predadores.
Aprofundando a pesquisa da artista no campo do audiovisual expandido, das animações, das imagens em CGI e dos ambientes imersivos, a série Vigilante_00 esbanja sensorialidade, performando uma quase tatilidade da experiência digital. Ao fazê-lo, Cribb aproxima corpo e máquina num regime cuja ambiguidade leva a lógica do avatar a um patamar não só estético, mas também ético. Defrontados com a sensual, anímica, perigosa e igualmente escatológica beleza das “vigilantes”, reconhecemos nossa empatia diante desses seres digitais com os quais desenvolvemos complexas relações de interdependência, encantamento e violência.
Entre a sexualização e o grotesco, na obra de Cribb perfaz-se um pathos erótico que é um projeto estético-político apoiado não só nos corpos e performatividades das avatares, mas também, e fundamentalmente, nas elaborações formais das peças audiovisuais. Superfícies brilhantes e reflexivas — como corpos e roupas que evocam látex e imaginários fetichistas —, cenários que sugerem umidade, viscosidade e maciez, espacialidades voláteis nas quais reverberam vozes com timbres aveludados, uma luz que não apenas clareia, mas adere, escorre e fascina, produzem uma visualidade tátil cujo brilho desafia a suposta imaterialidade do digital e evoca a vontade de atravessar a tela para tatearmos outros mundos possíveis — ou, numa dimensão mais trágica e politicamente realista, desobedecer o distanciamento e invadir os limites da alteridade que Vitória Cribb nos apresenta como uma mulher negra, meio animal, meio máquina.
Dessa forma, Cribb joga com os regimes de visibilidade próprios ao universo digital, confrontando nossa atração pela luminosidade das telas com o “discurso da luz” historicamente ficcionalizado pelo projeto supremacista sustentado pelo patriarcado e seu “cistema”. Diante de obras como Vigilantes_00, reconhecemo-nos como insetos girando ao redor de uma lâmpada e, assim, percebemos quão fantasiosa é a discursividade iluminista que, ainda hoje, cinicamente, persiste em atribuir exclusivamente a alguns humanos — e suas sociedades — a pretensa capacidade de iluminar a vida alheia.
Nessa direção, a participação recente de Vitória Cribb em exposições como New Humans (New Museum, Nova York, 2026), Arteônica (Museum of Latin American Art, Los Angeles, 2024) e PLAYING ENTITY (esc medien kunst labor, Graz, 2024) evidencia sua ativa participação no debate contemporâneo que as artes têm produzido acerca dos limites do humanismo moderno e suas implicações com o racismo, o machismo e o especismo. Num momento de escalada do feminicídio e do genocídio em diferentes regiões do planeta, o corpo poético de Cribb demonstra não só sua pertinência, mas também sua urgência.
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Clarissa Diniz é educadora, curadora e escritora em artes visuais. Professora do Departamento de História e Teoria da Arte da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ), Diniz é Mestra em Artes pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Doutora em Antropologia Cultural pelo pela UFRJ. Foi Gerente de Conteúdo do Museu de Arte do Rio – MAR (2013-2018), curadora assistente do Programa Rumos Artes Visuais 2008/2009 (Instituto Itaú Cultural), pesquisadora do Documents of 20th-century Latin American and Latino Art (MFAH, EUA), curadora convidada do Centre for Curatorial Leadership 2014 (MoMA, EUA) e do programa ARA History of Art Residency 2022 (Witwatersrand University, Johannesburg, África do Sul). Entre 2006 e 2015, foi editora da Tatuí, revista de crítica de arte. Publicou inúmeros artigos, catálogos e livros. Participou das 17ª e 21ª edições da Bienal Videobrasil como debatedora. Dentre suas curadorias recentes, destacam-se MEME: no Br@sil da memeficação (CCBB, 2025-2026), Montez Magno: Algúria (Pinacoteca de São Paulo, 2023) e Histórias Brasileiras (MASP, 2022).
BUGs | série Vigilante_00
Vitória Cribb, 2022
Vídeo, 05’40’’
O vídeo animado por computação gráfica retoma o avatar “vigilante”, utilizado em outras obras – uma personagem cibernética que habita o espaço virtual, cujo corpo é coberto de olhos e orelhas, e que nos observa e nos ouve continuamente por meio das tecnologias digitais. Se por meio do corpo digital dessa personagem a artista abordava a vigilância on-line descontrolada, em BUGs [insetos], as falhas e erros inesperados das máquinas digitais são aludidas pelo corpo virtual de um besouro, segundo a sinonímia que intitula a obra. Os excessos das máquinas e dos corpos humanos e de insetos contrastam com o aspecto asséptico da interface digital e da existência on-line. Por trás da limpeza aparente, porém, há o caráter ansioso e assustador da mistura entre o humano e o inumano por meio da tecnologia.
FICHA TÉCNICA
Direção, roteiro e animação: Vitória Cribb
Masterização e mixagem: Ramon Silva
Estagiário: Kleospatera
Produção de som (faixa 1): Anelena Toku
Produção de som (faixa 2): OLHO
Produção: BTWN Studio
VIGILANTE_EXTENDED | série Vigilante_00
Vitória Cribb, 2023
Vídeo, 8’32”
Vigilant avatars observe the movement of others in cyberspace, remaining static and distant, watching who observes and admires them. They take on different shapes by listening and seeing glimpses of others through the screens. Tip: don’t look for answers in their eyes.
echoes of a wet finger: | série Vigilante_00
Vitória Cribb, 2023
Vídeo, 13′
After waking up from a deep sleep, everything seems quiet until Tixa decides to take a shower. Something unexpected happens. A bathroom lizard enters the scene and everything becomes bizarre, yet special.