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Curadoria Bitu Cassundé, Ezra Wube
The Anthropocene Comedy
Hidirtina
Wenzu
Legendas

Bitu Cassundé comenta a obra de Ezra Wube

The Anthropocene Comedy
Ezra Wube, 2022
Vídeo, 29’40”

Hidirtina
Ezra Wube, 2018
Vídeo, 09’13’’

Dedicado a Dehab Tesfaye
História contada por Samira S.
Trilha sonora: Olani Ewunnet
Voz: Eden Ghebresellassie
Tradução: Kibrom Gebremedhin
Criado durante a Trestle Visiting Artist Residency Program

Wenzu
Ezra Wube, 2011
Vídeo, 3’09”

História contada por Frehiwot Tafesech Zeleke

EZRA WUBE
Por Bitu Cassundé

Desde os seus primeiros passos em Addis Abeba, na Etiópia, onde nasceu em 1980, Ezra Wube foi instigado a forjar um léxico criativo profundamente permeado pelo signo do deslocamento. O corpo em transposição, as distintas paisagens e os territórios inventados reconfiguram outras experiências do lugar, que acionam camadas de memórias para discutir o presente entre as violências coloniais do passado e o futuro que se constrói caótico, poluído, destrutivo pela ação irresponsável do homem, com seus impactos e transformações.

Radicado em Nova York, o artista visual assimilou o ambiente metropolitano como um terreno de contínuo estranhamento diante da cultura da artificialidade e das maleabilidades indomáveis do tempo e do lugar. Dessa fricção imemorial, emerge uma práxis expandida que perpassa o desenho, a colagem, a pintura, a performance, o vídeo e a animação. Em sua obra, processos artesanais e narrativas audiovisuais consubstanciam um projeto poético intimamente comprometido com a reinscrição da memória em contextos diaspóricos.

O método de Wube utiliza o atalho digital para evidenciar o rastro do trabalho manual e o tempo físico da feitura. Cada quadro da animação é construído pictoricamente, em camadas de tinta que se sobrepõem e se transmutam constantemente sobre o mesmo suporte. A técnica da pintura quadro a quadro espelha a urgência do deslocamento e a fragilidade dos ecossistemas diaspóricos que marcam toda a sua trajetória, expondo a indissociabilidade entre seu processo criativo e sua consciência política e ambiental.

A densidade de sua pesquisa visual se alicerça em sua formação, com graduação pelo Massachusetts College of Art e mestrado pelo Hunter College. Nessas institucionalidades, Wube encontrou as ferramentas para articular, de modo sistemático, sua herança ancestral e a premência do contemporâneo. O artista compreende a criação como um espaço de circulação e partilha coletiva, o que o impulsionou a fundar e organizar, desde 2015, o Addis Video Art Festival em sua cidade natal, conformando uma vigorosa plataforma internacional para a videoarte.

É, contudo, na animação Hidirtina (2018) que a imbricação entre mito, afrodescendência e urbanidade alcança uma de suas sínteses mais contundentes. O vídeo em stop motion, com pouco mais de nove minutos de duração, projeta as espacialidades simbólicas da cultura popular da Etiópia e da Eritreia sobre a silhueta árida dos arranha-céus nova-iorquinos. Recolhido a partir de relatos orais de uma mulher imigrante na comunidade de Nova York, o trabalho resgata uma lenda do povo Habesha. O enredo acompanha o caçador Yohanes que, surdo às advertências das imortais irmãs da floresta, abate um veado sagrado e atrai para si uma punição terrível. Salvo provisoriamente pelo amor de uma delas e pela magia de um amuleto originado de uma árvore protetora, o caçador sela seu trágico destino ao perder o talismã nas águas de um rio, sendo impiedosamente destruído e devorado por abutres.

Ao animar esse metamórfico enredo existencial, Wube aproxima os fluxos migratórios da paisagem metropolitana em um regime no qual a tradição não é compreendida como relíquia estanque, mas como força de sobrevivência. O filme evidencia de que maneiras lendas se alteram e se camuflam frente às condições limítrofes de uma nova cultura, persistindo, no entanto, como espinhas dorsais de uma visão de mundo inegociável.

A pertinência desse ecossistema imaginativo tem garantido ao corpo poético de Ezra Wube uma sólida circulação pelos circuitos globais da arte contemporânea, marcando presença nas bienais de Dakar (2014 e 2024) e de Lyon (2015). A porosidade de sua obra reverbera ainda em consistentes exposições individuais no Museum of the Moving Image (2014 e 2017) e no Chrysler Museum of Art (2018), além de sua participação na 21ª edição da Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (2019), entre outras.

Mais recentemente, a urgência política e existencial de sua trajetória foi reconhecida com a outorga do Michael Richards Visual Arts Award (2022) e o comissionamento do PROJECT ECOPOLIS, para a High Line Network (2024), além da participação na exposição coletiva The Myth of Normal, sediada no MassArt Art Museum (2023-24). Longe de ceder ao apagamento estrutural imposto por paisagens assépticas, Wube transforma a imagem em movimento numa encruzilhada de tempos, provando que o mito ainda respira, espreitando e resistindo entre as brechas.

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Bitu Cassundé é curador, pesquisador e educador. Gerente de Patrimônio e Memória do Centro Cultural do Cariri (Crato, CE), Cassundé é doutor em Artes pela Universidade Federal do Pará e mestre em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. Ao longo de sua carreira, assumiu importantes cargos em instituições culturais, sendo curador do Museu de Arte Contemporânea do Ceará (2013 a 2020), coordenador do Laboratório de Artes Visuais do Porto Iracema das Artes (2013 a 2018) e diretor do Museu Murillo La Greca (2009 a 2011). Integrou equipes curatoriais de projetos como À Nordeste, no Sesc 24 de Maio (2019), Programa Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural (São Paulo, 2008 a 2010) e 19º Festival Videobrasil (2015), além de assinar a curadoria de exposições em espaços como Centro Cultural do Cariri, Fundação Iberê Camargo, MAC Ceará, Museu Vale, Paço das Artes, entre outros. Em 2025, inaugurou Luiz Braga – arquipélago imaginário no Instituto Moreira Salles (Prêmio ABCA 2026, na categoria Curadoria de Exposições) e no Paço Imperial. Atualmente, pesquisa as relações de trânsito entre as regiões Norte e Nordeste do Brasil, com ênfase nos ciclos econômicos, fluxos migratórios e as conexões entre vida, desejo e arte. Questões relacionadas à subjetividade, confissão, intimidade e biografia também integram seus estudos.

The Anthropocene Comedy
Ezra Wube, 2022
Vídeo, 29’40”

Inspirado em A divina comédia, de Dante Alighieri, o curta-metragem reinterpreta a travessia pelo inferno para construir uma narrativa crítica sobre a catástrofe ambiental contemporânea. Ezra Wube desenvolve a obra com uma animação em stop motion de pinturas sobre tela e cartolina.

Hidirtina
Ezra Wube, 2018
Vídeo, 09’13’’

Hidirtina (irmãs) narra uma lenda tradicional da Etiópia e da Eritreia, contada a Ezra Wube por uma imigrante nos Estados Unidos. Na trama, o caçador Yohanes desafia a proibição de matar um animal sagrado, ato sujeito a punições severas, mas é salvo por uma das irmãs imortais da floresta que se apaixona por ele. O caçador vive em segurança por anos, protegido pelo amuleto com o qual foi presenteado, até o dia em que o objeto é levado por um rio e Yohanes é atingido por um ataque fatal de abutres. A obra narra a história por meio de uma animação em stop motion de pinturas que sobrepõe elementos da floresta e imagens dos arranha-céus de Nova York.

Wenzu
Ezra Wube, 2011
Vídeo, 3’09”

A obra reconta uma fábula africana, na qual uma hiena acusa um burro de sujar a água do rio ao beber, embora ela mesma mate sua sede em um trecho mais alto que ele. Articulando forma e conteúdo, Ezra Wube desenvolve a narrativa em uma animação em stop motion criada com terra, plantas e alimentos do cotidiano, como grãos, pão e sal.