EZRA WUBE
Por Bitu Cassundé
Desde os seus primeiros passos em Addis Abeba, na Etiópia, onde nasceu em 1980, Ezra Wube foi instigado a forjar um léxico criativo profundamente permeado pelo signo do deslocamento. O corpo em transposição, as distintas paisagens e os territórios inventados reconfiguram outras experiências do lugar, que acionam camadas de memórias para discutir o presente entre as violências coloniais do passado e o futuro que se constrói caótico, poluído, destrutivo pela ação irresponsável do homem, com seus impactos e transformações.
Radicado em Nova York, o artista visual assimilou o ambiente metropolitano como um terreno de contínuo estranhamento diante da cultura da artificialidade e das maleabilidades indomáveis do tempo e do lugar. Dessa fricção imemorial, emerge uma práxis expandida que perpassa o desenho, a colagem, a pintura, a performance, o vídeo e a animação. Em sua obra, processos artesanais e narrativas audiovisuais consubstanciam um projeto poético intimamente comprometido com a reinscrição da memória em contextos diaspóricos.
O método de Wube utiliza o atalho digital para evidenciar o rastro do trabalho manual e o tempo físico da feitura. Cada quadro da animação é construído pictoricamente, em camadas de tinta que se sobrepõem e se transmutam constantemente sobre o mesmo suporte. A técnica da pintura quadro a quadro espelha a urgência do deslocamento e a fragilidade dos ecossistemas diaspóricos que marcam toda a sua trajetória, expondo a indissociabilidade entre seu processo criativo e sua consciência política e ambiental.
A densidade de sua pesquisa visual se alicerça em sua formação, com graduação pelo Massachusetts College of Art e mestrado pelo Hunter College. Nessas institucionalidades, Wube encontrou as ferramentas para articular, de modo sistemático, sua herança ancestral e a premência do contemporâneo. O artista compreende a criação como um espaço de circulação e partilha coletiva, o que o impulsionou a fundar e organizar, desde 2015, o Addis Video Art Festival em sua cidade natal, conformando uma vigorosa plataforma internacional para a videoarte.
É, contudo, na animação Hidirtina (2018) que a imbricação entre mito, afrodescendência e urbanidade alcança uma de suas sínteses mais contundentes. O vídeo em stop motion, com pouco mais de nove minutos de duração, projeta as espacialidades simbólicas da cultura popular da Etiópia e da Eritreia sobre a silhueta árida dos arranha-céus nova-iorquinos. Recolhido a partir de relatos orais de uma mulher imigrante na comunidade de Nova York, o trabalho resgata uma lenda do povo Habesha. O enredo acompanha o caçador Yohanes que, surdo às advertências das imortais irmãs da floresta, abate um veado sagrado e atrai para si uma punição terrível. Salvo provisoriamente pelo amor de uma delas e pela magia de um amuleto originado de uma árvore protetora, o caçador sela seu trágico destino ao perder o talismã nas águas de um rio, sendo impiedosamente destruído e devorado por abutres.
Ao animar esse metamórfico enredo existencial, Wube aproxima os fluxos migratórios da paisagem metropolitana em um regime no qual a tradição não é compreendida como relíquia estanque, mas como força de sobrevivência. O filme evidencia de que maneiras lendas se alteram e se camuflam frente às condições limítrofes de uma nova cultura, persistindo, no entanto, como espinhas dorsais de uma visão de mundo inegociável.
A pertinência desse ecossistema imaginativo tem garantido ao corpo poético de Ezra Wube uma sólida circulação pelos circuitos globais da arte contemporânea, marcando presença nas bienais de Dakar (2014 e 2024) e de Lyon (2015). A porosidade de sua obra reverbera ainda em consistentes exposições individuais no Museum of the Moving Image (2014 e 2017) e no Chrysler Museum of Art (2018), além de sua participação na 21ª edição da Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (2019), entre outras.
Mais recentemente, a urgência política e existencial de sua trajetória foi reconhecida com a outorga do Michael Richards Visual Arts Award (2022) e o comissionamento do PROJECT ECOPOLIS, para a High Line Network (2024), além da participação na exposição coletiva The Myth of Normal, sediada no MassArt Art Museum (2023-24). Longe de ceder ao apagamento estrutural imposto por paisagens assépticas, Wube transforma a imagem em movimento numa encruzilhada de tempos, provando que o mito ainda respira, espreitando e resistindo entre as brechas.
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Bitu Cassundé é curador, pesquisador e educador. Gerente de Patrimônio e Memória do Centro Cultural do Cariri (Crato, CE), Cassundé é doutor em Artes pela Universidade Federal do Pará e mestre em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. Ao longo de sua carreira, assumiu importantes cargos em instituições culturais, sendo curador do Museu de Arte Contemporânea do Ceará (2013 a 2020), coordenador do Laboratório de Artes Visuais do Porto Iracema das Artes (2013 a 2018) e diretor do Museu Murillo La Greca (2009 a 2011). Integrou equipes curatoriais de projetos como À Nordeste, no Sesc 24 de Maio (2019), Programa Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural (São Paulo, 2008 a 2010) e 19º Festival Videobrasil (2015), além de assinar a curadoria de exposições em espaços como Centro Cultural do Cariri, Fundação Iberê Camargo, MAC Ceará, Museu Vale, Paço das Artes, entre outros. Em 2025, inaugurou Luiz Braga – arquipélago imaginário no Instituto Moreira Salles (Prêmio ABCA 2026, na categoria Curadoria de Exposições) e no Paço Imperial. Atualmente, pesquisa as relações de trânsito entre as regiões Norte e Nordeste do Brasil, com ênfase nos ciclos econômicos, fluxos migratórios e as conexões entre vida, desejo e arte. Questões relacionadas à subjetividade, confissão, intimidade e biografia também integram seus estudos.
The Anthropocene Comedy
Ezra Wube, 2022
Vídeo, 29’40”
Inspirado em A divina comédia, de Dante Alighieri, o curta-metragem reinterpreta a travessia pelo inferno para construir uma narrativa crítica sobre a catástrofe ambiental contemporânea. Ezra Wube desenvolve a obra com uma animação em stop motion de pinturas sobre tela e cartolina.
Hidirtina
Ezra Wube, 2018
Vídeo, 09’13’’
Hidirtina (irmãs) narra uma lenda tradicional da Etiópia e da Eritreia, contada a Ezra Wube por uma imigrante nos Estados Unidos. Na trama, o caçador Yohanes desafia a proibição de matar um animal sagrado, ato sujeito a punições severas, mas é salvo por uma das irmãs imortais da floresta que se apaixona por ele. O caçador vive em segurança por anos, protegido pelo amuleto com o qual foi presenteado, até o dia em que o objeto é levado por um rio e Yohanes é atingido por um ataque fatal de abutres. A obra narra a história por meio de uma animação em stop motion de pinturas que sobrepõe elementos da floresta e imagens dos arranha-céus de Nova York.
Wenzu
Ezra Wube, 2011
Vídeo, 3’09”
A obra reconta uma fábula africana, na qual uma hiena acusa um burro de sujar a água do rio ao beber, embora ela mesma mate sua sede em um trecho mais alto que ele. Articulando forma e conteúdo, Ezra Wube desenvolve a narrativa em uma animação em stop motion criada com terra, plantas e alimentos do cotidiano, como grãos, pão e sal.