Sobre mulas e aviões

Em Volando Bajo, Elkin Calderón e Diego Piñeros dão voz a um narrador singular: um avião da combalida frota de DC-3 que o governo colombiano comprou em meados do século passado, quando o modelo ainda era ícone de modernidade, e que até hoje são usados para transpor as planícies e matas do país. Enquanto faz o que acredita ser seu último voo, atravessando paisagens e tempos, ele costura episódios históricos e oníricos, conta glórias e fracassos, apresenta passageiros inusitados e compartilha reflexões “aéreas”, criando metáforas potentes do descompasso entre o futuro prometido no pós-guerra e um presente de ruína e incerteza. “Percebi que sou um anacronismo”, diz. “Preso entre minha grandeza original e minha atual obsolescência”.

A obra que a plataforma Videobrasil Online tem o privilégio de exibir em primeira mão é fruto de uma pesquisa possibilitada pela residência que a dupla de artistas colombianos realizou na Villa Ruffieux, em Sierre, Suíça, dentro do programa Pro Helvetia, como prêmio por sua participação na 20ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (2017) com o vídeo Centro Espacial Satelital de Colombia. O novo projeto toma como ponto de partida uma imagem criada pelo arquiteto suíço Le Corbusier em uma de suas visitas a Bogotá: surpreso com a mudança sem escalas que ocorria nos transportes colombianos com a chegada dos DC3, ele fez um desenho que intitulou Da mula ao avião.

Relacionando mulas e aviões para discutir ideias como a suspensão no tempo e a resistência à modernização, Calderón e Piñeros mergulharam em acervos audiovisuais de épocas e naturezas diversas. As histórias e imagens que encontram atestam desde o glamour relacionado aos DC-3 nos anos 1940 e 1950 até a melancólica situação atual desses sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, ainda essenciais para alcançar regiões inóspitas, remotas e abandonadas pelo Estado colombiano.

Além de Volando Bajo, a pesquisa resultou na instalação De la mula al avión, que foi exposta no Monumento a Los Héroes, em Bogotá, em 2019, e incluía uma versão escultural, em palha, de uma mulinha articulada – brinquedo que também foi muito popular no Brasil – fazendo contraponto com a escultura equestre de Simón Bolívar. Os dois trabalhos compartilham fragmentos narrativos e a imagem-síntese da mula alada para mostrar como uma máquina que representava a alvorada da modernidade tornou-se reflexo de seus fracassos, falhas e perversidades – e, ao mesmo tempo, ao amalgamar-se a uma natureza também dilapidada, passou a simbolizar a resistência de quem enfrenta o avanço implacável do progresso.

Calderón & Piñeros (La Decanatura) 

A ideia de deslocamento e o interesse de travar novas relações com memórias e ruínas estão no centro dos trabalhos do coletivo, criado em 2014 e integrado hoje pelos artistas Elkin Calderón Guevara e Diego Piñeros García. Suas narrativas audiovisuais resgatam e deslocam encenações e representações do passado, conduzindo a novas leituras da realidade através de uma poética do tempo e do espaço. Indicados ao X Premio Luis Caballero (2019-2020), da prefeitura de Bogotá, os dois foram premiados na V Bienal de Artes Plásticas y Visuales da cidade (2018) e contemplados com a bolsa PLATAFORMA Bogotá en Arte, Ciencia y Tecnología (2017).

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